A SÍNDROME DO FANTÁSTICO

Tenho escutado desde criança algo que nunca dei importância, mas que há alguns anos, por estudar e pesquisar profundamente o comportamento humano, comecei a dar a devida importância.

Lembro-me que desde criança até a minha juventude, antes de sair da casa dos meus pais, sentado na sala da casa, logo que o Fantástico começava, minha mãe falava coisas como: “Aí Deus, que depressão, o domingo se foi!”, “Aí, que triste, começou o Fantástico e mais um domingo se foi!”, “Fim de domingo é sempre um porre!”, e por incrível que pareça, quando a casa estava com visita, escutava a mesma coisa de outras pessoas, e quando eu era a visita na casa de amigos ou de algum familiar, a história se repetia, sempre a mesma coisa. Todos ficavam visivelmente abatidos ao escutar a vinheta de abertura do Fantástico.

Mas o que está por trás de tal acontecimento que se repete todos os domingos, em tantas residências, com tantas pessoas pelo Brasil?

Para chegar a essa explicação, preciso esclarecer a parte científica desse acontecimento, e para isso utilizarei a explicação do que é uma “âncora” e automaticamente o que é o processo de “ancoragem”. Tudo isso tem uma explicação científica, e você entenderá a importância de não se apegar a esse tipo de emoção que pode se tornar um hábito destruidor e acabar por dominar cada vez maior parcela do seu dia (domingo) e com o tempo de seus dias (toda a semana).

O que é uma âncora?

Toda emoção tem uma gatilho, e todo gatilho dispara uma ou mais emoções. É automático, é rápido, é imperceptível.

Alguns símbolos, marcas e outras imagens nos fazem acionar significados imediatamente (placas de trânsito, bandeiras, sinais de trânsito, farda policial, jaleco médico). Alguns sons nos trazem significados automaticamente (sirene dos bombeiros, aplausos, músicas). Algumas sensações gustativas e olfativas nos trazem significados automaticamente (cheiro de hospital, cheiro de terra molhada, sabor da comida predileta, sabor do chocolate, sabor do café ou mesmo o cheiro do café).

Ivan Petrovich Pavlov foi premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904, por suas descobertas sobre os processos digestivos de animais. Ivan Pavlov veio, no entanto, a entrar para a história por sua pesquisa em um campo que se apresentou a ele quase que por acaso: o papel do condicionamento na psicologia do comportamento (reflexo condicionado).

Na década de 1920, ao estudar a produção de saliva em cães expostos a diversos tipos de estímulos palatares, Pavlov percebeu que com o tempo a salivação passava a ocorrer diante de situações e estímulos que anteriormente não causavam tal comportamento (como por exemplo, o som dos passos de seu assistente ou a apresentação da tigela de alimento). Curioso, realizou experimentos em situações controladas de laboratório e, com base nessas observações, teorizou e enunciou o mecanismo do condicionamento clássico.

As primeiras experiências com os cachorros eram simples. Segurava um pedaço de pão e mostrava ao cachorro antes de dá-lo para comer. Com o tempo o cachorro passou a salivar assim que percebia o pedaço de pão. A salivação era uma resposta quando a comida era colocada em sua boca, uma reação natural de reflexo do sistema digestivo do animal e não envolvia aprendizagem. Pavlov designou esse reflexo de reflexo inato ou não condicionado.

Logo, ele acompanhou durante um longo tempo, vários outros cães com a seguinte experiência: ao chegar ao lugar onde os cachorros estavam, Pavlov tocava uma campainha e somente depois tratava os cães. Após alguns dias, os cachorros já associavam o som da campainha com a comida, e mesmo sem ver a comida, estavam salivando e mostravam-se ansiosos para comer.

Pavlov provou, por meio desse experimento, que os cães desenvolvem comportamentos em resposta a estímulos ambientes, e tais comportamentos podem ser explicados sem que se precise entender o que se passa no plano mental ou psicológico. Essas conclusões deram material ao behaviorismo (teoria proposta por Watson) para afirmar que o ser humano aprende essencialmente através da imitação, observação e reprodução dos comportamentos dos outros, e que nossas ações são meras respostas ao ambiente externo.

Portanto, as âncoras são gatilhos visuais, auditivos e cinestésicos que são associados a uma resposta ou a um estado específico. As âncoras estão ao nosso redor, sempre que respondemos sem pensar, estamos sob a influência de uma âncora. Geralmente as âncoras são tão externas (estímulos externos), e são tão óbvias e comuns que mal as percebemos.

Essa associação, que com o tempo passou a ser instantânea, é mais normal do que você imagina. Por meio de imitação, observação ou reprodução você pode adquirir um hábito de outra pessoa, principalmente se essa pessoa for próxima a você ou representar algum grau de importância para você. Outra coisa que pode acontecer é você ficar triste porque o domingo está acabando, ou porque a segunda está começando, e acabar por ancorar uma emoção ligada, por exemplo, ao Fantástico.

Você pode não acreditar na Lei da Gravidade, mas se você se jogar do 10º andar de um prédio, acreditando ou não, você morrerá. Nem tudo depende da sua aprovação para acontecer ou para deixar de acontecer, para existir ou deixar de existir. Você tem que entender que algumas leis são simples, mas que suas consequências, caso ignoradas, podem trazer grandes complicações, ou até mesmo podem ser fatais.

Ficar refém de âncoras pode significar uma contínua instabilidade de sentimentos, e um grau de conflito e confusão até insuportável para a própria vida, e para a vida de terceiros. Preste atenção no seu dia, algumas repetições, de alguns comportamentos, podem identificar que você está refém de um estímulo-resposta, ou seja, de uma ou mais âncoras, que desencadeiam uma ou mais reações automáticas no seu organismo, e que por tão condicionado a situação, você simplesmente ignore a lógica.

Algumas coisas podem parecer meio malucas quando apresentadas de cara para você, mas nem por isso são falsas. Eis aqui uma informação que provavelmente você não conhecia, mas que pode mudar e muito o curso da sua vida se você souber se beneficiar do aprendizado contido nas linhas acima.

Amor e Sabedoria.

Thiago Tombini

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